Expo Favela 2026 reúne histórias de inovação e empreendedorismo no Amazonas 

Agência Rhisa
8 Min Read
Rodada de negócios entre empreendedores e empresários - imagem: divulgação

Empreendedores apresentam negócios criados a partir de desafios ambientais, sociais e econômicos e buscam novas conexões para ampliar seus projetos

Por trás dos produtos e projetos apresentados na Expo Favela Innovation Amazonas 2026 estão histórias que começaram muito antes da feira. São empreendedores que encontraram em problemas do cotidiano a inspiração para criar negócios e iniciativas voltadas à sustentabilidade, à educação, à bioeconomia e à geração de oportunidades.

Realizada nos dias 19 e 20 de setembro, no Centro de Convenções Vasco Vasques, em Manaus, a terceira edição da Expo Favela Innovation Amazonas reuniu empreendedorismo, inovação, cultura e criatividade, com destaque para iniciativas desenvolvidas nas periferias amazônicas.

Entre os empreendimentos que participaram do evento está a Kaweru, startup criada em 2024 por três professoras indígenas. A ideia surgiu a partir da observação de um problema comum em áreas produtoras de banana: o descarte do pseudocaule da planta, que não é aproveitado depois da retirada do fruto.

A equipe decidiu transformar esse resíduo agrícola em matéria-prima para a produção de embalagens compostáveis, criando uma alternativa ao uso de materiais plásticos.

Priscila Gutierrez, uma das fundadoras, conta que a ideia surgiu depois de uma proposta para participação em um Ideathon. A equipe passou a procurar uma solução que unisse sustentabilidade e geração de renda.

“Então a gente viu aí uma solução: por que não utilizar esses resíduos que são jogados e descartados e transformar em uma matéria-prima, agregando valor e também gerando a economia circular lá dentro do município?”, afirmou.

O projeto, porém, ainda enfrenta dificuldades para ampliar a produção. Segundo Priscila, a principal barreira é financeira. A startup já conseguiu recursos, mas precisa de máquinas que não são comercializadas no Brasil e precisam ser importadas.

A participação na Expo Favela aparece, nesse cenário, como uma oportunidade de estabelecer novas conexões.

“A Expo Favela abre portas para novas parcerias e conexões com outros empreendedores”, disse Priscila.

Quando a comunicação também é uma forma de incluir

A educação é o ponto de partida de outro projeto apresentado no evento. O Comunicar para Incluir, criado pela pedagoga Susiane Frota, trabalha para ampliar as possibilidades de comunicação de estudantes que enfrentam barreiras linguísticas ou relacionadas à aprendizagem e ao desenvolvimento.

O projeto começou com foco em pessoas imigrantes e passou a atender também crianças com TEA e TDAH. Entre as ferramentas desenvolvidas estão recursos de comunicação alternativa e aumentativa e uma plataforma digital, ainda em desenvolvimento, que pretende oferecer atividades personalizadas para cada estudante.

A professora Meg, integrante da equipe, explica que a iniciativa nasceu da percepção de que alguns estudantes acabavam não sendo plenamente compreendidos no ambiente escolar.

“O que se percebia? Que esse aluno era desconsiderado, como se até ali ele não tivesse uma vivência, uma história para contar. Então ele era anulado como pessoa”, relatou.

A venezuelana Mildreth Del Valle Perez Enriquez, de 21 anos, faz parte da história do projeto. Ela chegou ao Amazonas com a família e enfrentou dificuldades de comunicação durante o processo de adaptação.

“A gente chegou assim sem entender nada e foi muito difícil, principalmente pra mim, pra minha irmã”, contou.

Para ela, ferramentas de comunicação como as desenvolvidas pelo projeto poderiam ter facilitado os primeiros momentos no Brasil.

“Se eu tivesse isso quando cheguei aqui, ia me ajudar muito, ia me sentir mais, sabe, com mais confiança”, afirmou.

O projeto já foi aplicado em uma escola pública da Zona Norte de Manaus por meio de uma ação de extensão. A equipe agora busca ampliar as parcerias para levar a proposta a mais escolas públicas.

Um negócio que começou com as abelhas

Para Paulo Cássio, o empreendedorismo com abelhas começou em um período difícil da vida. Em 2019, enquanto enfrentava um processo de depressão, ele assistiu a um vídeo sobre criação de abelhas e decidiu pesquisar sobre o assunto.

Pouco depois, recebeu do sogro o pedido para retirar abelhas que haviam se instalado em um recipiente e estavam causando problemas para os moradores. Sem equipamentos adequados, improvisou uma roupa e realizou a retirada.

“Eu tomei tanta ferroada”, lembrou.

A experiência despertou o interesse pela atividade. Ao lado da esposa, Daniele Xavier, Paulo começou a conciliar a criação de abelhas com uma loja de roupas que a família mantinha.

Com o tempo, os produtos das abelhas passaram a vender mais do que as roupas. Foi quando o casal decidiu concentrar os esforços no novo negócio.

“Até que chegou uma hora em que o Paulo virou para mim e falou assim: ‘Ué, o produto das nossas abelhas está vendendo mais do que aí na loja’. Aí eu: ‘É mesmo! Bora focar?’”, contou Daniele.

Hoje, o casal trabalha com diferentes produtos derivados das abelhas e também desenvolveu o projeto Ouro da Quebrada, apresentado na Expo Favela. A proposta é ensinar a criação de abelhas nativas sem ferrão, incentivar a preservação da natureza e ajudar produtores a conectar seus produtos ao mercado.

Para Daniele, o conhecimento adquirido ao longo de anos de trabalho pode ser compartilhado com outras pessoas que vivem na Amazônia.

“Como melhorar a vida das pessoas? Fazer com que elas tenham acesso a essa riqueza que está na copa das árvores?”, questionou.

Novas oportunidades

Além das histórias apresentadas pelos empreendedores entrevistados, a edição amazonense selecionou cinco iniciativas para representar o estado na etapa nacional da Expo Favela, no Rio de Janeiro: AWTY – Guardião dos Rios, Amazon Barber, Flora Amazônica Cosmética, Águila Hikari e Izolena Garrido.

A seleção amplia a possibilidade de esses empreendedores apresentarem seus negócios para novos públicos e estabelecerem conexões fora do estado. A proposta da Expo Favela é justamente aproximar empreendedores das periferias de investidores, empresas e parceiros estratégicos.

As histórias da Kaweru, do Comunicar para Incluir e do MelCássio mostram diferentes caminhos para transformar uma necessidade em oportunidade. Em comum, os projetos carregam experiências que ultrapassam a criação de um produto ou serviço: envolvem sustentabilidade, educação, geração de renda, preservação ambiental e a busca por novas possibilidades dentro dos territórios onde esses empreendedores vivem e atuam.

Para quem participa, a feira representa também um espaço para apresentar essas histórias, encontrar parceiros e transformar iniciativas que começaram pequenas em projetos capazes de alcançar mais pessoas.

Por: Milena Monteiro