Da previsão à prevenção: ferramentas científicas ajudam a antecipar riscos na Amazônia

Agência Rhisa
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Página AlertAr Saúde

Sistemas de monitoramento climático e da qualidade do ar podem orientar ações de prevenção, enquanto iniciativas da Fiocruz buscam ampliar a proteção de populações vulneráveis aos impactos de incêndios e eventos extremos

Por: Milena Monteiro

Antecipar riscos ambientais pode fazer diferença na proteção da população amazônica, especialmente durante períodos de calor intenso, seca e incêndios florestais. Na região, pesquisas e ferramentas de monitoramento vêm sendo utilizadas para identificar condições de risco, acompanhar a qualidade do ar e fornecer informações que podem orientar medidas preventivas. O desafio é transformar esses dados em ações que alcancem os serviços públicos e as comunidades mais expostas.

Um estudo internacional publicado em 2026 na revista Communications Earth & Environment identificou que as temperaturas extremas durante a estação mais seca aumentaram pelo menos 3,22 °C, ao longo de 43 anos, em uma área superior a 700 mil quilômetros quadrados do centro-norte amazônico. Os resultados reforçam a importância de compreender as mudanças climáticas e preparar respostas para seus possíveis impactos.

Nesse contexto, o monitoramento não se limita à observação das temperaturas. Acompanhar a qualidade do ar, identificar períodos de maior risco e compreender quais populações estão mais vulneráveis também são etapas importantes para reduzir danos.

A fumaça como risco à saúde pública

Os incêndios florestais afetam não apenas a vegetação, mas também a saúde de quem vive na Amazônia. A fumaça contém gases e partículas finas, entre elas o material particulado PM2,5, capaz de penetrar profundamente nos pulmões.

Segundo Raphael Saldanha, pesquisador do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a exposição à fumaça pode causar irritação nos olhos e na garganta, tosse e falta de ar, além de agravar doenças respiratórias. Também está associada a problemas cardiovasculares, hospitalizações e mortes.

Crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças respiratórias ou cardíacas estão entre os grupos que exigem atenção especial. Como a fumaça pode percorrer longas distâncias, os efeitos da poluição não ficam restritos às áreas próximas aos incêndios.

Na Amazônia, a situação pode ser ainda mais complexa para comunidades indígenas que enfrentam dificuldades de deslocamento e acesso aos serviços de saúde. Nessas circunstâncias, informações antecipadas sobre a qualidade do ar podem ajudar equipes de saúde e comunidades a organizar medidas de proteção.

Alertas sobre a qualidade do ar

Uma das ferramentas utilizadas nesse contexto é o AlertAr Saúde, desenvolvido pelo Observatório de Clima e Saúde da Fiocruz. O sistema disponibiliza previsões diárias da qualidade do ar para até cinco dias, com mapas e informações sobre locais e períodos em que as concentrações de poluentes podem aumentar.

A antecipação permite que serviços de saúde e autoridades avaliem possíveis medidas preventivas, como orientar a população a reduzir atividades ao ar livre durante episódios de maior poluição e preparar o atendimento de pessoas mais vulneráveis.

A previsão, porém, não elimina os riscos nem garante que as condições ambientais ocorram exatamente como indicado. Seu papel é fornecer informações para apoiar decisões e permitir que medidas de proteção sejam organizadas com antecedência.

Proteção nos territórios indígenas

A Fiocruz também desenvolve, em parceria com a Secretaria de Saúde Indígena (Sesai), uma adaptação que relaciona dados sobre poluição e incêndios aos territórios indígenas. A proposta é apoiar os Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs) e as equipes de saúde na vigilância, prevenção e assistência.

Entre as medidas que podem ser planejadas estão o acompanhamento de pessoas mais vulneráveis, a identificação de espaços com ar mais limpo, a organização de suprimentos e o planejamento de transporte para situações de emergência. Quando a exposição à fumaça não puder ser evitada, o uso de máscaras PFF2 bem ajustadas pode reduzir a inalação de partículas, embora não proteja contra todos os gases presentes na fumaça.

A adoção dessas medidas precisa considerar as condições de cada território e ser construída com a participação de lideranças indígenas, agentes de saúde e comunidades. A distância dos serviços, as condições de transporte e a disponibilidade de recursos podem determinar se um alerta será convertido em proteção efetiva.

Do IPAM/ Foto de Divulgação

Dados precisam chegar à população

O uso de ferramentas de monitoramento é uma etapa importante, mas não resolve sozinho os problemas associados aos extremos climáticos. Para que os alertas tenham efeito, é necessário que as informações cheguem às pessoas em tempo hábil, sejam compreendidas e estejam acompanhadas de condições concretas para agir.

Na Amazônia, isso significa considerar as diferenças entre áreas urbanas, comunidades ribeirinhas e territórios indígenas, além das limitações de acesso à comunicação, ao transporte e aos serviços de saúde. Uma previsão pode indicar o aumento do risco, mas a resposta depende da capacidade de cada localidade de se preparar.

O desafio também envolve articular informações climáticas, ambientais e de saúde. Quanto mais integrados estiverem o monitoramento, a vigilância e o planejamento, maior poderá ser a capacidade de identificar situações críticas e organizar respostas adequadas.

Em um cenário de intensificação dos extremos climáticos, a ciência oferece instrumentos para melhorar a antecipação dos riscos. Transformar essas informações em prevenção, contudo, exige planejamento contínuo, investimento e atenção às populações mais vulneráveis.