Incubada no Inpa, startup desenvolve soluções biotecnológicas a partir de microalgas amazônicas e planeja ampliar em dez vezes sua capacidade produtiva com uma biorrefinaria na região.
Por Milena Monteiro
Uma startup criada na Amazônia para transformar microalgas nativas em soluções biotecnológicas conquistou o primeiro lugar na Região Norte, na categoria Tração ou Escala, do Prêmio Mulheres Inovadoras 2026. A Aqua Viridi receberá R$ 120 mil da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), em iniciativa realizada em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).
O resultado foi anunciado em outubro, após uma seleção que recebeu 638 propostas de todo o país. Para a cofundadora e diretora-executiva da empresa, Fabiane Almeida, o reconhecimento representa uma validação do modelo de negócio e do potencial da bioeconomia amazônica para gerar resultados econômicos a partir do conhecimento científico.
“Para a Aqua Viridi, significa um selo realmente de que o nosso modelo de negócio alinhado à bioeconomia, à biodiversidade amazônica, é um modelo de negócio que funciona, rentável e que gera impacto, sim, nessa região”, afirma Fabiane.
A premiação integra a sétima edição do Mulheres Inovadoras, programa que busca fortalecer empresas lideradas por mulheres por meio de aceleração, mentorias e reconhecimento financeiro. Na edição de 2026, a Finep prevê R$ 3,6 milhões em premiações para 50 startups selecionadas em diferentes estágios de desenvolvimento.
Da pesquisa científica ao mercado
Incubada no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), a Aqua Viridi desenvolve soluções biotecnológicas a partir de microalgas nativas da região. A proposta é aproveitar as propriedades desses organismos para criar produtos com aplicações em diferentes setores, como nutrição animal, agricultura e tratamento de água.
Entre as soluções desenvolvidas pela empresa estão a farinha de algas rica em proteínas, utilizada como ingrediente para alimentação animal, e produtos à base de microalgas voltados à agricultura, como bioestimulantes e biofertilizantes.
A iniciativa busca aproximar a pesquisa científica das demandas do mercado, transformando recursos da biodiversidade amazônica em produtos comercializáveis. Para Fabiane, a conquista demonstra que empresas de base científica podem desenvolver atividades economicamente sustentáveis sem perder de vista os impactos ambientais e regionais.
“É possível, sim, ter uma startup rentável, uma empresa que pensa nos impactos econômicos, ambientais e científicos, mas que também gera receita”, destaca.
A trajetória da empresa também está relacionada à construção de um negócio de longo prazo na região. Segundo a empreendedora, permanecer inserida no território amazônico é fundamental para produzir impactos associados à biodiversidade, à ciência e ao desenvolvimento econômico local.

Expansão da capacidade produtiva
Além do reconhecimento, a startup vive uma etapa de expansão. De acordo com Fabiane, a empresa está estruturando a primeira biorrefinaria de microalgas da Amazônia, com o objetivo de ampliar a capacidade produtiva de 8 mil para 80 mil litros por semana — um aumento de dez vezes.
A iniciativa é apontada pela diretora-executiva como uma mudança de etapa no desenvolvimento da Aqua Viridi. Depois de avançar na validação tecnológica e comercial, com clientes pagantes e receita recorrente, a empresa busca ampliar a produção para atender às próximas demandas do mercado.
“Estamos saindo de um momento de validação comercial, validação tecnológica, com clientes pagantes, receita recorrente, demonstrando que é possível com conhecimento científico você gerar nota fiscal, indo agora para uma expansão gigantesca”, explica.

O planejamento da biorrefinaria está associado ao financiamento obtido pela empresa junto à Finep. Já o prêmio de R$ 120 mil reconhece a classificação alcançada no Mulheres Inovadoras e representa um recurso adicional para apoiar o desenvolvimento do negócio.
A Finep é uma empresa pública vinculada ao MCTI que atua no financiamento da ciência, da tecnologia e da inovação no Brasil. Além de apoiar projetos de pesquisa e desenvolvimento, a instituição mantém iniciativas voltadas ao fortalecimento de empresas inovadoras, contribuindo para aproximar conhecimento científico, empreendedorismo e mercado.
Empreendedorismo feminino e inovação na Amazônia
Para Fabiane, a conquista também tem um significado pessoal. Mineira, ela vive há cerca de 20 anos na Amazônia e construiu uma trajetória profissional que reúne pesquisa, docência e gestão executiva. Antes de se dedicar integralmente à startup, atuou como professora e pesquisadora na Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), além de ter exercido a função de reitora no Centro Universitário do Norte (Uninorte).

Nos últimos quatro anos, a empreendedora vem trabalhando na construção da Aqua Viridi, com dedicação integral ao negócio nos últimos três. Ela afirma que o reconhecimento representa a realização de um objetivo de vida: retribuir à região as oportunidades que recebeu e mostrar que mulheres podem liderar empresas tecnológicas de sucesso.
“Eu quero demonstrar que, sim, a mulher pode estar onde ela quiser e pode ter sucesso na vida onde ela quiser, especialmente nos negócios”, afirma.
Fabiane também ressalta os desafios enfrentados por mulheres negras no ambiente empresarial e no setor de inovação. Para ela, ampliar a presença feminina na liderança de negócios científicos é uma forma de mostrar que a diversidade pode ocupar espaços estratégicos na economia e na tecnologia.
A trajetória da Aqua Viridi, segundo a empreendedora, reforça o potencial do Norte e do Nordeste como regiões capazes de desenvolver negócios competitivos em biotecnologia e bioeconomia. Nesse cenário, a biodiversidade amazônica deixa de ser apenas objeto de pesquisa e passa a integrar soluções com potencial de geração de receita, expansão de mercado e impacto regional.
Com o reconhecimento da Finep e os planos de ampliação da produção, a startup busca consolidar sua atuação no mercado e fortalecer um modelo de negócio que conecta ciência, inovação e biodiversidade amazônica.

