Indústria 4.0 na Amazônia mira serviços de alto valor e formação de especialistas até 2030

Agência Rhisa
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Especialistas defendem integração entre empresas, academia e centros de pesquisa para ampliar a inovação e enfrentar desafios de infraestrutura, qualificação e retenção de talentos na região

A transformação da indústria na Amazônia até 2030 deve depender não apenas da adoção de novas tecnologias, mas da capacidade de transformar dados e conhecimento em soluções de maior valor agregado. Inteligência Artificial (IA), visão computacional, automação e serviços industriais aparecem entre as ferramentas que podem contribuir para processos mais eficientes e sustentáveis.

As perspectivas foram discutidas durante a 7ª Conferência Internacional AMOCI, no painel “Indústria 4.0 na Amazônia: Inovação e Sustentabilidade”. O debate reuniu especialistas para discutir os caminhos necessários para que a região avance na chamada Quarta Revolução Industrial.

Para Sandro Breval, pós-doutor em Indústria 4.0, um dos caminhos está na expansão dos chamados serviços industriais de alto valor agregado. A proposta é que as empresas não se limitem à comercialização de equipamentos ou componentes, mas ofereçam também soluções tecnológicas capazes de melhorar processos produtivos.

“É exatamente direcionar também os esforços para que nós tenhamos os serviços industriais de alto valor agregado. Por quê? Porque primeiro que eles são sustentáveis, e segundo que eles têm um valor agregado maior em termos de resultado”, afirmou.

Breval citou como exemplo uma empresa alemã que fornece rolamentos utilizados em máquinas da indústria de papel. Como a produção de papel demanda grandes volumes de água, problemas nas máquinas podem provocar perdas durante o processo.

Nesse cenário, segundo o especialista, a tecnologia pode ampliar o papel do fornecedor. “Ela vende toda a visão computacional que o rolamento, obviamente, se utiliza para a fabricação daquele papel, para evitar perda, defeito, e assim por diante. Olha o serviço industrial de alto valor agregado.”

Para ele, esse modelo pode orientar parte da transformação da indústria amazônica. “Então, a gente tem que começar a pensar nessa linha”, disse.

vista de drone do distrito industrial. imagem divulgação

Inteligência Artificial exige conhecimento humano

A Inteligência Artificial também foi um dos pontos centrais da discussão. Edson Farias, gerente de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação na Digiboard Eletrônica da Amazônia, em Manaus, destacou que a Quarta Revolução Industrial apresenta uma característica diferente das anteriores: ela está acontecendo no presente.

“Nós, diferente das outras três que nós conhecemos dos livros, a Quarta Revolução nós estamos a vivenciar. Nós estamos a atravessar e a acompanhar todo esse processo”, afirmou.

O avanço tecnológico, porém, traz uma questão para o mercado de trabalho: a preparação dos profissionais para novas funções. Farias lembrou que as revoluções industriais anteriores provocaram o desaparecimento de determinadas ocupações e o surgimento de outras.

“Então, acho que o grande desafio continua a ser a capacitação do ser humano. Eu preciso continuar a procurar capacitação, entender tudo isso, utilizar isso em benefício nosso”, afirmou.

Na avaliação do especialista, a expansão da IA não significa a substituição completa do conhecimento humano. Pelo contrário, o domínio das ferramentas tecnológicas dependerá de profissionais capazes de interpretar dados e aperfeiçoar os processos.

“É ele que vai melhorar o processo. É ele que vai afinar, refinar aquilo que está a ser produzido”, disse, referindo-se ao papel do especialista.

Farias resumiu essa relação entre tecnologia e conhecimento ao afirmar: “A máquina, a IA, é só um algoritmo, é a ferramenta matemática. A inteligência continua a ser com o ser humano.”

Formação técnica entra na estratégia

A necessidade de qualificação já aparece, segundo Farias, em iniciativas de formação desenvolvidas no Amazonas. Ele citou um curso de especialização em cibersegurança realizado em parceria com a Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e iniciativas da Fundação Paulo Feitoza voltadas à formação técnica.

Entre elas está um curso de ensino médio técnico em Automação Industrial. A proposta, segundo o gerente, é preparar jovens para atuar em um ambiente industrial marcado pela presença crescente de tecnologias digitais.

“Então esses jovens, eles vão estar empregados antes de terminar o curso técnico. Porque eles estão a ser treinados para ser especialistas, já com esse olhar de conhecimento. Dominar as ferramentas”, afirmou.

Ecossistema de inovação precisa estar conectado

A qualificação, no entanto, é apenas uma parte dos desafios. Alberjan Pinto, gerente de Projetos Sênior de P&D e coordenador do PPI 4.0, destacou a necessidade de aproximar empresas, universidades e instituições de pesquisa e desenvolvimento.

“A gente tem que reduzir realmente as distâncias entre a academia, entre o ecossistema de P&D e as empresas, principalmente”, afirmou.

Segundo Pinto, a Amazônia Ocidental enfrenta desafios estruturais que podem dificultar a expansão da inovação, como infraestrutura, formação de profissionais e retenção de talentos.

“A gente tem problemas crônicos em nossa região: infraestrutura física, questão de capacitação de pessoal, pessoas, retenção de talentos”, disse.

Para o especialista, a integração entre os diferentes atores do ecossistema pode ajudar a enfrentar parte dessas dificuldades.

“Eu acredito que com um ecossistema conectado e com um ecossistema maduro, a gente consegue reduzir em grandes partes essas fragilidades que a nossa região, a Amazônia Ocidental, ainda tem”, afirmou.

A discussão apresentada na conferência indica que a Indústria 4.0 na Amazônia envolve uma transformação que vai além da instalação de máquinas automatizadas. A adoção de Inteligência Artificial, sistemas digitais e automação está associada à geração de serviços tecnológicos, à redução de desperdícios e à formação de profissionais capazes de desenvolver e aperfeiçoar essas soluções.

Para os especialistas, aproximar conhecimento, tecnologia, empresas e formação profissional será parte importante desse processo. Nesse cenário, o desafio para a próxima década não está apenas em incorporar novas ferramentas, mas em criar as condições para que elas sejam utilizadas de forma estratégica nos processos produtivos da região.

Por: Milena Monteiro