Pesquisas indicam aumento das ondas de calor e do desconforto térmico na capital amazonense; coordenador do Atlas ODS Amazônia destaca necessidade de adaptação urbana diante dos impactos das mudanças climáticas
Manaus está ficando mais quente. A constatação é resultado de pesquisas conduzidas ao longo das últimas décadas e reforça os alertas sobre os impactos das mudanças climáticas nas cidades amazônicas.
O tema ganhou ainda mais relevância após a divulgação de um estudo realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), que revelou que as ondas de calor estiveram associadas a cerca de 120 mil mortes no Brasil entre 2000 e 2019. A pesquisa, feita pela primeira vez em escala nacional, analisou dados de temperatura, internações e óbitos registrados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) ao longo de duas décadas.
Em Manaus, os efeitos desse fenômeno já são percebidos de forma cada vez mais intensa. Estudos apontam que a capital amazonense é, em média, 1,74°C mais quente do que as áreas de floresta ao seu redor, podendo registrar diferenças superiores a 3°C nas temperaturas máximas anuais. Outro levantamento identificou 225 episódios de ondas de calor na cidade entre 1970 e 2019. Desse total, 88% ocorreram entre 2000 e 2019, indicando uma intensificação desses eventos nas últimas décadas.
Além disso, um ranking internacional recente apontou Manaus como a cidade brasileira mais ameaçada pelas ondas de calor e a 27ª mais vulnerável do mundo aos impactos desse fenômeno climático.
O levantamento, desenvolvido pela Universidade de Oxford, mostra que Manaus ocupa a 27ª posição global sendo mais vulnerável que outras grandes capitais brasileiras. Entre as cidades avaliadas, Goiânia aparece na 46ª colocação, seguida por Belo Horizonte (66ª), Fortaleza (67ª), São Paulo (77ª), Rio de Janeiro (83ª), Brasília (88ª), Recife (89ª), Salvador (93ª), Curitiba (119ª) e Porto Alegre (120ª). O estudo considerou cidades com mais de 1 milhão de habitantes, critério que abrange apenas 15 municípios brasileiros e permite comparar centros urbanos de porte semelhante.
Para o coordenador do Atlas ODS Amazônia e diretor do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Dr. Henrique Pereira, os dados mostram que a capital amazonense vem registrando um aumento consistente da exposição ao calor extremo.
“Nossos estudos sobre os impactos dos eventos climáticos extremos em Manaus mostram que a cidade está ficando progressivamente mais quente. Ao analisar 50 anos de dados climáticos, identificamos uma tendência clara de aumento do Índice de Desconforto Humano, especialmente durante o verão amazônico. Em muitos casos, os valores já ultrapassam o nível 80, considerado crítico para a saúde humana. Isso significa que as ondas de calor tendem a se tornar mais frequentes e severas, exigindo medidas urgentes de adaptação urbana para proteger a população.”
Segundo o pesquisador, o cenário é resultado de uma combinação de fatores globais e locais. Além dos efeitos das mudanças climáticas, a expansão urbana, a redução da cobertura vegetal e a impermeabilização do solo contribuem para a formação das chamadas ilhas de calor, fenômeno que aumenta a temperatura nas áreas urbanas em relação às regiões florestadas do entorno.
Os impactos vão além da sensação de desconforto. Especialistas apontam que temperaturas elevadas podem agravar doenças cardiovasculares e respiratórias, aumentar os riscos de desidratação e afetar principalmente grupos mais vulneráveis, como idosos, crianças e pessoas com doenças crônicas.
O avanço das ondas de calor também representa um desafio para o planejamento urbano e para a gestão pública. Medidas como ampliação da arborização, preservação de áreas verdes, melhoria da infraestrutura urbana e fortalecimento dos serviços de saúde são consideradas fundamentais para aumentar a capacidade de adaptação das cidades amazônicas aos eventos climáticos extremos.
Os dados reforçam a importância de monitorar indicadores relacionados à saúde, meio ambiente e qualidade de vida, temas diretamente ligados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU). Ferramentas como o Atlas ODS Amazônia contribuem para identificar vulnerabilidades territoriais e apoiar a formulação de políticas públicas voltadas à resiliência climática e ao desenvolvimento sustentável.
Em um contexto de aumento das temperaturas globais, compreender os impactos do calor extremo e investir em estratégias de adaptação será cada vez mais importante para proteger a população e garantir melhores condições de vida nas cidades da Amazônia.
Sobre o Atlas ODS Amazônia
O Atlas ODS Amazônia é uma plataforma de monitoramento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) na Amazônia Legal. A iniciativa reúne dados e indicadores dos 772 municípios da região, permitindo acompanhar o desempenho local em temas como saúde, educação, infraestrutura, meio ambiente e desenvolvimento econômico, contribuindo para a formulação de políticas públicas baseadas em evidências e para o fortalecimento da Agenda 2030.
Por: Milena Monteiro

