Evento pelos 20 anos da organização reuniu pesquisadores, lideranças, organizações sociais e representantes de diferentes setores para discutir novos caminhos para os sistemas alimentares na Amazônia
A pergunta não era apenas sobre quem estará diante do fogão. Em Manaus, durante um encontro que reuniu diferentes atores ligados à alimentação, a questão “quem vai cozinhar esse futuro?” ganhou um significado mais amplo: quem vai produzir o alimento, decidir como ele será produzido, preservar os territórios e definir os caminhos dos sistemas alimentares nas próximas décadas?
Foi a partir dessa provocação que a Gastromotiva reuniu pesquisadores, organizações sociais, representantes de comunidades, iniciativa privada e instituições públicas no Bosque da Ciência, em Manaus, para marcar os 20 anos da organização e discutir a relação entre gastronomia, inclusão social, ciência, segurança alimentar e conservação da Amazônia.
Mais do que discutir a comida que chega ao prato, o encontro colocou em debate tudo o que existe antes e depois dela. Produção, renda, conhecimento, cultura, biodiversidade, políticas públicas e as condições de vida de quem vive nos territórios apareceram como partes de um mesmo sistema.

Para Ademar Vasconcelos, diretor executivo do Instituto Acariquara, parceiro da iniciativa, essa é justamente a dimensão que diferencia a discussão sobre gastronomia social.
“Quando a gente tá falando de comida, não é só a comida no sentido gastronômico, mas toda essa questão dos sistemas alimentares, de uma visão mais ampla”, afirmou.
A resposta pode estar no território
Ao longo das discussões, uma ideia apareceu de diferentes maneiras: as soluções para os problemas da Amazônia não precisam ser inventadas de fora para dentro.
O professor Clovis Pereira defendeu que os conhecimentos acumulados pelas populações tradicionais precisam ocupar um lugar central nas decisões sobre o futuro da região. Para ele, práticas relacionadas ao açaí, à castanha, ao guaraná, ao cacau e à terra preta são resultado de milhares de anos de interação e manejo da floresta.
A experiência do manejo comunitário do pirarucu foi citada como exemplo dessa relação. O conhecimento das comunidades sobre os períodos e formas adequadas de pesca contribuiu para recuperar populações da espécie, ao mesmo tempo em que gerou renda e segurança alimentar.
A lógica também apareceu em experiências mais recentes. Um projeto de avicultura comunitária apresentado durante o evento nasceu de uma necessidade concreta: enfrentar a insegurança alimentar provocada pelas condições de extrema sazonalidade dos rios.
A resposta foi construída junto às comunidades, com participação da universidade, iniciativa privada e organizações locais. Os próprios moradores participaram da construção dos aviários e receberam formação prática. O modelo posteriormente ganhou escala, chegando a mais de 100 aviários implementados no Amazonas e a um plantel de aproximadamente 8 mil aves.
Ciência que sai dos muros
Se os territórios produzem conhecimento, outro desafio colocado durante o encontro foi fazer com que a academia esteja disposta a ouvi-los.
Na mesa dedicada ao papel da universidade na regeneração dos sistemas alimentares, os participantes discutiram justamente como transformar conhecimento científico em soluções concretas e como aproximar a universidade das comunidades. A proposta passa por sair dos limites da sala de aula e conhecer diretamente as realidades locais.
A presença do encontro no Bosque da Ciência também reforçou essa conexão. Representando o INPA, Magali destacou o papel da instituição na produção e popularização do conhecimento sobre a Amazônia e apontou a aproximação com a Gastromotiva e o Instituto Acariquara como parte de uma rede que busca construir alternativas por meio da alimentação.

Alimentar pessoas para conservar a floresta
Outra discussão deslocou o olhar da floresta como algo separado das pessoas. Para Virgilio Viana, da Fundação Amazônia Sustentável, conservar a Amazônia também significa criar condições para que as populações que vivem nela possam prosperar.
A estratégia apresentada por ele parte de serviços básicos — água potável, energia e conectividade — para alcançar educação, saúde e renda. A esse conjunto se somam o fortalecimento das organizações comunitárias, a conservação ambiental e o acesso à ciência, tecnologia e inovação.
“Cuidar das pessoas que cuidam da floresta” foi a síntese apresentada para essa abordagem. A ideia é que a conservação não pode ser pensada separadamente das condições econômicas e sociais das comunidades. Em situações de vulnerabilidade, a necessidade imediata de garantir alimento e renda pode se sobrepor às preocupações de longo prazo com a floresta.
Uma gastronomia que começa antes da cozinha
É nesse ponto que a trajetória de 20 anos da Gastromotiva se encontra com os desafios amazônicos. Para David Hertz, fundador da organização, a gastronomia social passou de uma iniciativa voltada a problemas como desemprego, desperdício e insegurança alimentar para uma agenda que envolve organizações sociais, academia e poder público.
Em Manaus, essa trajetória ganhou novos elementos. A floresta, os conhecimentos tradicionais, a produção comunitária e a ciência passaram a fazer parte da mesma conversa.
A resposta para a pergunta que guiou o encontro, portanto, não parece estar em uma única pessoa ou instituição. O futuro dos sistemas alimentares é apresentado como uma construção coletiva, na qual cozinheiros, pesquisadores, comunidades, gestores públicos, empresas e organizações sociais precisam participar.
E, na Amazônia, essa construção começa por reconhecer que muito do conhecimento necessário para esse futuro já existe, e está nos territórios, nas comunidades e nas relações construídas há gerações com a floresta
Por: Milena Monteiro

