Estudo realizado nas reservas Mamirauá e Amanã mostra que a alimentação de famílias ribeirinhas é resultado da combinação entre ambiente, formas de subsistência e acesso a alimentos industrializados
O que chega à mesa de comunidades indígenas e ribeirinhas da Amazônia não depende apenas do que é produzido dentro dos territórios. Um estudo publicado na revista Frontiers in Sustainable Food Systems mostra que a alimentação dessas populações é influenciada pela combinação entre produção agrícola, pesca, renda, condições ambientais e acesso aos mercados. A pesquisa foi realizada em seis comunidades das Reservas de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e Amanã, no Amazonas, e analisou 41 domicílios.
A pesquisa foi conduzida pela pesquisadora Daiane Soares Xavier da Rosa, em parceria com Henrique dos Santos Pereira, João Afonso Baptista, Patricia Carvalho Rosa e Cristina Branquinho. Os pesquisadores utilizaram registros do consumo alimentar das 24 horas anteriores às entrevistas, questionários estruturados e entrevistas semiestruturadas. O objetivo foi entender como diferentes condições socioeconômicas e ambientais se relacionam com a diversidade e a aquisição de alimentos.
As comunidades estudadas apresentam diferenças na relação com o território e com os centros urbanos. Algumas estão em áreas de paleovárzea, onde a agricultura e a pesca têm papel importante na subsistência. Outras ficam em áreas de várzea e apresentam maior conexão com centros urbanos e maior diversidade de fontes de renda. Essa diferença ajuda a explicar por que não existe um único padrão alimentar entre as comunidades analisadas.
“Os hábitos alimentares são construídos cultural e socialmente e são influenciados, para além de questões ambientais, por fatores socioeconômicos e de acesso”, explica Daiane da Rosa.
Segundo a pesquisadora, a presença de minimercados nas próprias comunidades é um desses fatores, porque amplia a disponibilidade de alimentos industrializados e ultraprocessados.

Um dos principais resultados encontrados pelos pesquisadores foi a relação entre a diversidade de cultivos agrícolas e os padrões de consumo das famílias. No estudo, a diversidade de cultivos foi o único preditor significativo dos padrões de consumo alimentar. Já a aquisição de alimentos em supermercados esteve associada principalmente à presença de minimercados locais, à renda proveniente da pesca e às características dos ecossistemas.
A forma de conseguir os alimentos também varia dentro das próprias comunidades. Algumas famílias dependem mais das roças e dos quintais. Outras combinam agricultura, pesca, criação de animais, extrativismo e compras em centros urbanos ou pequenos estabelecimentos locais.
“Isso pode indicar que, enquanto as estratégias de aquisição são estruturadas socialmente e compartilhadas comunitariamente, o consumo alimentar reflete as diferentes formas e capacidades que cada família apresenta de converter essas estratégias em alimentação”, afirma Daiane.
A pesquisadora cita como exemplo uma das comunidades participantes, onde um barco comunitário realiza viagens mensais até a cidade mais próxima para a compra de alimentos. No mesmo território, algumas famílias mantêm quintais com hortaliças e plantas medicinais, enquanto outras cultivam pequenas roças para produzir farinha ou criam galinhas, porcos e gado. Para Daiane, a situação mostra a variedade de estratégias usadas pelas famílias para garantir o acesso à comida.

A pesquisa também chama atenção para uma aparente contradição: uma dieta mais diversificada não significa necessariamente uma alimentação de melhor qualidade. Os pesquisadores encontraram associação entre índices mais elevados de diversidade alimentar e maior consumo de alimentos industrializados e ultraprocessados. O artigo aponta ainda que as comunidades com maior variedade de alimentos consumidos apresentaram, em alguns casos, maior consumo de produtos ultraprocessados.
Esse processo está relacionado à chamada transição alimentar, caracterizada pela incorporação crescente de alimentos industrializados aos sistemas alimentares tradicionais. O fenômeno não significa, porém, que os alimentos locais tenham desaparecido. O estudo identifica a permanência de estratégias baseadas na agricultura, na pesca e em outros recursos disponíveis nos territórios.
A integração aos mercados aparece, portanto, como um dos elementos que podem modificar a alimentação. A presença de pequenos comércios dentro das comunidades facilita o acesso a produtos que antes exigiam deslocamentos até centros urbanos. Ao mesmo tempo, renda e atividades como a pesca podem ampliar a capacidade das famílias de adquirir diferentes tipos de alimentos.
“Quanto maior a integração ao mercado, maior também tem se tornado o acesso físico e econômico aos produtos alimentares ultraprocessados”, afirma Daiane. A pesquisadora destaca que a mudança no padrão alimentar também produz efeitos ambientais, devido ao aumento da circulação de embalagens nos territórios.
“Não é incomum ver pacotes de salgadinhos, garrafas PET e embalagens diversas flutuando pelos rios amazônicos”, observa a pesquisadora. Para ela, a destinação inadequada dos resíduos sólidos representa um desafio crescente para comunidades e municípios do interior da Amazônia.
Os resultados levam os autores a defender políticas públicas adaptadas às características de cada território. O estudo aponta que ações de fortalecimento da agricultura de subsistência e da pesca de pequena escala podem contribuir para a manutenção dos sistemas alimentares locais, mas precisam considerar as dificuldades de acesso, a sazonalidade e as mudanças ambientais.
Entre as medidas citadas pela pesquisadora estão o fortalecimento de programas de alimentação escolar e de assistência alimentar durante períodos de seca severa.

“Essas políticas precisam estar em consonância com os hábitos alimentares locais, priorizando alimentos in natura e minimamente processados e evitando produtos alimentares ultraprocessados”, defende Daiane.
Para os pesquisadores, os resultados mostram que a alimentação na Amazônia precisa ser analisada considerando simultaneamente ambiente, economia, cultura e organização social. As diferenças entre as comunidades e entre as próprias famílias indicam que políticas de segurança alimentar formuladas de maneira uniforme podem não responder às necessidades de todos os territórios.
Assim, a pesquisa reforça que garantir o acesso à alimentação na Amazônia não significa apenas aumentar a oferta de alimentos. Também envolve preservar formas locais de produção, considerar as condições ambientais e econômicas de cada comunidade e compreender como a expansão dos mercados está transformando os hábitos alimentares.
Por: Milena Monteiro

