Mapeamento conecta riscos geológicos e fé: Estudo inédito sobre templos de matriz africana entra para o repositório da Ufam

Agência Rhisa
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Foto: Joao Dejacy

Pesquisa revela que terreiros em Manaus enfrentam vulnerabilidade dupla: a ameaça de deslizamentos e inundações somada às barreiras burocráticas para manter suas atividades.

Já está disponível para consulta pública no Repositório Institucional da Universidade Federal do Amazonas (RI-UFAM) o estudo do projeto “Cartografia da Resistência e do Cuidado”. A pesquisa, lançada no contexto do Mês da Consciência Negra, apresenta uma análise inédita sobre a situação dos terreiros e templos de matriz africana em Manaus, revelando um cenário de dupla vulnerabilidade: a exposição a riscos geológicos e as barreiras para o acesso à imunidade tributária.

O trabalho é fruto de uma articulação entre pesquisadores, incluindo Danilo Egle, coordenador técnico do Atlas ODS Amazônia, e Hunjair Luiz de Badé, sacerdote do Xwê Ná Sin Fifá do Instituto Ganga Zumba. O estudo utiliza dados oficiais para lançar luz sobre como a desigualdade urbana afeta a preservação do patrimônio imaterial negro na capital amazonense.

Mapeamento tem o objetivo voltado à proteção dos povos e comunidades tradicionais.

Mapeamento de Risco Geológico

A primeira vertente do estudo cruzou dados de localização dos terreiros com o “Mapeamento das áreas de risco geológico da zona urbana de Manaus”, elaborado pelo Serviço Geológico do Brasil (CPRM). A análise identificou que diversos espaços sagrados estão situados em — ou muito próximos a — zonas classificadas como de alto (R3) e muito alto risco (R4) para inundações, alagamentos, erosões e deslizamentos.

Segundo a pesquisadora Aixa Lopes, especialista em desastres urbanos, o estudo permite associar áreas de risco específicas aos templos, evidenciando que as zonas Norte e Leste concentram o maior número de domicílios vulneráveis.

“Desastres naturais ganham gravidade quando se combinam com desigualdade urbana. Esses eventos ficam mais frequentes e graves quando cresce o número de assentamentos irregulares e as mudanças climáticas intensificam os eventos extremos”, explica Lopes.

Para quem vive a fé nesses territórios, o impacto vai além da estrutura física. Agonjaí Nochê Flor de Navê, sacerdotisa do Templo de Tambores de Mina Jejê-Nagô Xwê Ná Sin Fifá, na zona norte, alerta para a dimensão simbólica dessa insegurança:

“Quando um terreiro é erguido em área de risco, todo esse universo fica ameaçado. Quando o risco avança, não é só o barranco que desaba, é também a segurança espiritual da comunidade”, afirma a sacerdotisa.

Deslizamento Mauazinho. Foto: João Dejacy

O Custo da Burocracia

Além do risco físico, o estudo disponível no repositório aborda a vulnerabilidade institucional. Apesar de a Constituição Federal garantir a isenção de IPTU para templos de qualquer culto, muitos terreiros em Manaus continuam arcando com o imposto.

A pesquisa aponta que a dinâmica dos terreiros — onde o espaço de culto muitas vezes divide lugar com a moradia comunitária e o acolhimento social — esbarra na burocracia municipal, que exige comprovação de “uso exclusivo para fins religiosos”.

O impacto financeiro retira recursos que poderiam ser investidos em rituais e na manutenção da comunidade. Para mitigar esse problema, o Instituto Ganga Zumba, no âmbito da iniciativa Amazônia de Cores, desenvolve um guia jurídico, mencionado no estudo, para apoiar a formalização e a solicitação de isenção, fortalecendo a autonomia desses espaços.

Ciência para Políticas Públicas

A disponibilização deste mapeamento no Repositório da UFAM tem o objetivo de transformar dados em ferramentas de gestão. Para Danilo Egle, pesquisador do Atlas ODS Amazônia, é urgente que o poder público utilize essas informações para agir.

“O mapa apresenta claramente os territórios sagrados e a proximidade de áreas de risco iminente. É preciso que as políticas de proteção não se limitem a manifestações culturais visíveis, mas abarquem a segurança e a permanência dos terreiros como parte do patrimônio territorial negro”, ressalta Egle.

Ao integrar o acervo da UFAM, o estudo se torna uma fonte permanente de consulta para estudantes, gestores públicos e a sociedade civil, reforçando o papel da Universidade na produção de conhecimento que dialoga diretamente com as urgências sociais da Amazônia.