Primeira semana da COP30: compromissos, tecnologia e o protagonismo dos povos indígenas

Agência Rhisa
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Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Acordos internacionais, anúncios do governo brasileiro e protestos indígenas moldam o tom da COP30 em uma semana decisiva para a agenda climática

A 30ª edição da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), realizada em Belém (Pará), terminou a sua primeira semana com uma combinação de grandes anúncios, tensões políticas e manifestações de povos indígenas e comunidades tradicionais da Amazônia, que reivindicavam maior participação das decisões climáticas. Os próximos dias prometem aprofundar as negociações, mas o primeiro balanço já evidencia o peso estratégico da Amazônia e dos povos indígenas no atual debate climático.

Na abertura oficial do evento, realizada na segunda-feira (10), os países adotaram rapidamente a agenda, incluindo temas como adaptação às mudanças climáticas, cidades, infraestrutura, água, resíduos, bioeconomia e inteligência artificial. 

Ao longo da semana, um dos destaques foi a discussão sobre montante anual estimado em US$1,3 trilhão necessário para a implementação de políticas climáticas globais até 2035, segundo a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC). Mas os debates sobre esta ação de financiamento, chamada “Baku to Belém Roadmap”, e outros textos definitivos, estão longe de acabar. 

Além disso, pelo menos dez países, entre eles China e União Europeia, apoiaram oficialmente a “Brazil-led Declaration on the Open Coalition on Compliance Carbon Markets”, uma iniciativa para harmonizar os mercados de carbono nacionais.

Durante a abertura, o presidente Lula classificou a COP30 como “a COP da verdade” e reforçou que “uma transição justa precisa contribuir para reduzir as assimetrias entre o Norte e o Sul Global, forjadas sobre séculos de emissões”. Ao longo da semana, o Brasil assumiu protagonismo no lançamento da plataforma Green Digital Action Hub e do AI Climate Institute — iniciativas apresentadas sob liderança brasileira para ampliar o uso de tecnologia no enfrentamento à crise climática.

Pressão indígena e manifestações

Um grupo formado por diferentes etnias indígenas, de países da Amazônia e dos Andes, protagonizou manifestações marcantes na primeira semana de  conferência. A ação demonstra a insatisfação desses povos com a sua exclusão das tomadas de decisão. É, por exemplo, o caso do Brasil, já que apenas 14% dos representantes indígenas do país esperavam ter acesso à zona de negociação oficial da COP30 (a “Blue Zone” ou “Zona Azul”). 

Um dos protestos ocorreu na manhã dessa sexta-feira (14), quando lideranças indígenas bloquearam pacificamente a entrada da conferência, ergueram lanças e mostraram cartazes afirmando que “A Amazônia não pode continuar a ser destruída para enriquecer grandes empresas”. 

Já em outro episódio, na quarta-feira (12), manifestantes indígenas e ativistas confrontaram seguranças e invadiram uma área restrita do evento, gritando frases como “Nossas florestas não estão à venda”.

Nas intervenções e atos públicos, as lideranças indígenas pedem:

  • inclusão plena nas negociações climáticas, não apenas como “observadores”;
  • demarcação e proteção de territórios tradicionais como política climática, e não apenas como tema ambiental secundário;
  • interrupção da exploração de petróleo, mineração e desmatamento em suas áreas, apontando ligação direta com “ecocídio”. 

Desafios, tensões políticas e os próximos passos

A convergência plena ainda enfrenta resistências, apesar dos anúncios de cooperação pelos participantes do evento. O tema da eliminação de combustíveis fósseis, por exemplo, ainda é considerado “imaturo” por delegados importantes. Já o mecanismo de adaptação, tema sensível entre países desenvolvidos e em desenvolvimento, mostrou divisões na definição de indicadores e financiamento. 

Além disso, a ausência dos Estados Unidos, que não enviou delegação de alto nível, foi interpretada como um revés simbólico para o multilateralismo climático.

Sediar a COP30 na região amazônica confere à conferência um caráter significativo e prático: a floresta e seus povoamentos tradicionais estão no centro da crise e da solução. Porém, as polêmicas desta semana evidenciaram que a realidade amazônica vai além das narrativas apresentadas.

Com o fim da primeira semana de evento, se inicia uma fase de negociações mais intensas e para a definição de compromissos concretos: mesas sobre transição energética, finanças, mercado de carbono, adaptação e perdas e danos. A partir de agora, a COP30 entra em sua segunda metade com o desafio de transformar discursos em resultado, para a Amazônia, para os povos indígenas e para o mundo.

Por: Portal Apoena