Projeto pioneiro na Amazônia usa inteligência artificial para identificar sementes nativas mais viáveis e fortalecer a restauração florestal diante da degradação e das mudanças climáticas.
Às vésperas da COP30, cientistas correm contra o tempo para restaurar áreas degradadas da Amazônia. Pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e parceiros estão aplicando inteligência artificial para prever a viabilidade de sementes e tornar o replantio mais eficiente.
“Precisamos restaurar de forma rápida e assertiva, usando a tecnologia a nosso favor”, afirma Lydiane Bastos, engenheira florestal do Inpa. Em 2024, a degradação florestal atingiu mais de 20 mil km², segundo o Imazon, o maior índice dos últimos 15 anos.
O projeto de Lydiane, financiado pelo Instituto Serrapilheira e pela Fapespa, coleta e analisa imagens de 200 espécies florestais nativas do Baixo Tapajós (PA). Raios-X e scanners de alta resolução ajudam a identificar sementes com melhor potencial de germinação, reduzindo o tempo de avaliação e evitando perdas comerciais. “As sementes podem levar meses para germinar. Quando descobrimos se o lote é viável, muitas vezes já é tarde”, explica a pesquisadora.
A inteligência artificial também auxilia na diferenciação de espécies semelhantes e na escolha de matrizes mais produtivas, tornando a restauração mais precisa. “É o mundo mágico da IA aplicado à floresta”, diz Lydiane.
A engenheira florestal Jéssica Reis, da Embrapa Belterra, reforça o impacto da tecnologia: “É uma esperança ver as florestas sendo replantadas. Essa esperança está guardada dentro das sementes”.
O trabalho envolve comunidades coletoras da Floresta Nacional do Tapajós. Para moradores como José Viana, a pesquisa valoriza o conhecimento tradicional e estimula a permanência no território. “A floresta é minha segunda casa. Já está tudo gravado na mente”, resume o coletor de sementes.
A pesquisa conta com apoio de laboratórios da UFOPA, do Centro de Sementes Nativas do Amazonas (CSNAM) e do Museu Paraense Emílio Goeldi, formando uma rede inédita de cooperação científica na região Norte.

Além de prever a viabilidade das sementes, os cientistas estudam os efeitos de agrotóxicos sobre a germinação e o crescimento inicial das espécies. “Queremos entender como a agricultura ao redor das florestas afeta o desenvolvimento das plantas nativas”, explica Túlio Silva, da UFOPA.
Com o uso de IA, pesquisadores esperam acelerar o replantio e fortalecer a resiliência das florestas amazônicas — um passo essencial rumo às metas da Década da Restauração de Ecossistemas (2021–2030)
Esta reportagem foi produzida de forma colaborativa entre InfoAmazonia e Amazônia Vox

